DA: Heart of the Storm - KENDRA


KENDRA

[Caern Pilares de Gaia - Região Centro-Oeste de Albion - 4 dias antes da batalha na Costa]

Pelas contas da Senhora das Sombras, fazia mais de duas horas que o mestre de rituais havia começado os cânticos iniciais para abertura da assembleia, e nesse momento toda a sua força de vontade era dedicada a não bocejar, ou dar qualquer indício de como tudo aquilo era inebriantemente chato.

O theurge, chamado Indalos, era um dos melhores xamãs do reino, e recebera a benção do rei para realizar as formalidades ritualísticas em toda e qualquer reunião. Talvez para mostrar suas vastas habilidades, talvez para impressionar os inúmeros convidados que sempre transitavam pela corte, ele tinha dedicado um tempo maior a cada ritual, os executando com técnicas e chiminage crescentemente mais elaboradas e requintadas. Apesar de ser algo impressionante nas primeiras vezes, depois da centésima se tornava algo extremamente enfadonho.

Virou-se à direita, onde estava sentado o Rei Joseph Morte-ao-Alvorecer, e tentou decifrar o semblante taciturno do garou. Estava sério, segurando um cálice de vinho adornado em prata e ouro, mas não havia tomado uma gota sequer durante toda a performance do ritualista. Seus olhos azuis e brilhantes pareciam vidrados nos cânticos e nos espíritos que participavam da cerimônia, mas ao mesmo tempo, também pareciam olhar além de tudo, como se perdido em algum lugar no tempo. A única coisa que se movia era o cálice em sua mão, balançando lentamente o conteúdo rubro de um lado para o outro, em um movimento tão ritmado quanto involuntário.

Tão absorto estava que, com certeza, não conseguiu escutar o rosnado constante que aumentava de intensidade a cada minuto que passava. À direita do rei estava sentado Ukrit Pedra-Negra, seu primeiro ministro, sentinela do Caern, braço direito e um dos ahrouns mais poderosos que já tivera a oportunidade de conhecer. E, pelo que parecia, a paciência do guerreiro estava começando a mostrar claros sinais de desgaste.

As cadeiras de madeira em que estavam sentados eram de um mogno negro, finamente entalhadas e, até onde era possível, confortáveis. Formavam um semicírculo na vasta clareira onde ficava o coração do Caern, bem em frente à pequena fogueira que marcava o centro de poder do local. Entre a dança de luz e sombras propagada pelo fogo, mais de uma dezena de garous assistiam ao ritual.

Ukrit se mexeu novamente, com um rosnado ainda mais alto que o anterior, carregado de fúria e impaciência. Sem querer (ou não) quebrou um dos suportes da cadeira de madeira nesse movimento, emitindo um barulho estrondoso que quase tirou o theurge do transe.

- Calma meu caro amigo, o ritual já está findando...

A voz calma de Joseph saiu tão naturalmente baixa que a Kendra teve que se esforçar para escutar com exatidão. O rei não havia se movido um milímetro, tão pouco perdido a atenção no ritual, mas ainda assim fora capaz de endereçar algumas palavras para seu cão de guarda. E, como belo cão de guarda que era, o ahroun parou com aquele irritante rosnado.

Demorou mais vinte minutos até que o ritual finalmente terminasse, para desespero de Ukrit. De certa forma, foi muito informativo mensurar a quantidade de irritação que conseguiria aguentar antes de explodir em fúria sem sentido. Teve que admitir que os últimos cinco minutos foram deveras tensos, e estava preparada para mudar para crinos a qualquer momento. Felizmente nada disso aconteceu e a assembleia podia seguir seu curso.

Após as formalidades, cada um dos subordinados do rei poderia realizar pedidos, mover requerimentos ou simplesmente exigir a justiça do governante, que, por razões óbvias, aconteciam com frequência. O caern dos Pilares de Gaia era um dos maiores da Europa, talvez um dos maiores do mundo, tanto em poder quanto em extensão. E os Presas de Prata se orgulhavam de dominar esse lugar à quase meio milênio, desde que a Casa do Coração Sábio chegou a Albion junto com os romanos. Mas talvez não continuasse assim por muito tempo.

Antes que qualquer um pudesse dizer alguma coisa, Ukrit se levantou de seu lugar em um salto, derrubando a cadeira semidestruída no chão. Usava as roupas tradicionais da realeza Fianna, verdes e vermelhas, com um ar de prepotência que só rivalizava com o do rei. Caminhou com toda a pompa que possuía para frente do monarca e ajoelhou, mantendo a cabeça baixa olhando para o chão. Um cão, sem dúvida.

- Meu rei, por favor, eu imploro novamente, ajude meu povo.

Joseph não demonstrou qualquer reação visível, e ainda balançava o cálice displicentemente. Seu olhar frio parecia não enxergar o garou prostrado à sua frente, ou parecia não identificar o que acontecia ali. Era como se uma brisa fria do inverno estivesse soprando constantemente, apesar da proximidade da fogueira.

- Ukrit, já conversamos sobre isso duas noites atrás, e conversamos novamente sobre isso ontem. O que te faz acreditar que esse seu pedido de hoje irá mudar alguma coisa?

- Meu rei, recebi uma notícia esta manhã. Um mensageiro Peregrino veio a mim, a pedido da Seita do Lamento do Oceano. Lars Estrela-do-Norte está avançando furiosamente pela costa do reino, e irá chegar lá em poucos dias.

- Lars - murmurou o rei - eu já ouvi falar desse nome, acredito que algum menestrel já tenha cantado alguma canção. Ele é realmente tão perigoso assim, Ukrit?

Kendra viu o ahroun cravar as garras na terra, como se ouvir as palavras do rei com uma voz tão fria e distante fosse o pior dos castigos. Lá estava ele, aos joelhos de quem considerava seu melhor amigo, e ainda assim era recebido com tamanha indiferença. Kendra não conseguiu disfarçar o breve sorriso nos lábios.

- Meu rei, ele e sua frota de fenrires são uma das maiores ameaças que temos em anos. Quem sabe quantos caerns eles irão atacar? Quem sabe quanto tempo eles vão levar até chegar até aqui?

O plano estava se desenrolando de forma magistralmente bem, Kendra pensou, e precisava agora apenas de mais um pequeno empurrão. Então ela limpou a garganta sutilmente e se levantou.

- Meu rei, - disse com a voz mais melodiosa que possuía - eu entendo a urgência no pedido do grande Ukrit, mas perguntou, o que os Fenrires estão fazendo de errado? Qual crime cometem?

- Mulher!! Como ousa questionar o sofrimento da minha tribo? Você tem ideia de quantos Fiannas já morreram nas mãos dos Fenrires? Quantos caerns perdemos para esses bárbaros nórdicos?

- Eu peço desculpas por minha ousadia, bravo herói. Mas perdoe minha ignorância nesses assuntos. Apesar de ser uma meia lua, desconheço como são as tradições e leis dos Fiannas.
Esperou alguns segundos, ainda com a cabeça baixa em uma postura de reverencia. Mas seus olhos aguçados e felinos não deixaram de o encarar nem um segundo.

- Ainda assim, se levarmos em conta a Litania, os Fenrires têm todo o direito de desafiar os caerns que eles juguem incapazes de se defender. Se os Fiannas não conseguem manter os aliados de fora, o que dizer quando a Corruptora decidir cravar suas garras nos santuários de Gaia?

- Sua resposta então, Kendra, é deixar esses loucos invadirem nossas terras e roubar nossos caerns? Deixar que eles tomem posse de nossos parentes e acabem com nossa cultura? É isso que está sugerindo, Kendra Estrela-Brilhante?

- Os Fenrires, até onde sei, não vieram em grandes números. Eles dominaram 3 caerns até agora, e, levando-se em conta a quantidade de guerreiros que sobraram, eles podem tomar, no máximo, mais um caern.

- SIM, O NOSSO MAIOR CAERN. AQUELES MALDITOS QUEREM O LAMENTO DO OCEANO, SUAESTÚPIDA, IGNORANTE, IM...

Parou no meio da frase, quase engolindo as palavras. Rei Joseph havia se levantando do trono violentamente, e sua expressão mudara de indiferença para completa fúria. Seus olhos azuis praticamente faiscavam na noite, e o pobre cálice jazia torcido e deformado em sua mão.

- Não tolerarei esse tipo de injúria na minha corte, Ukrit. Se tem alguma coisa contra Kendra, ou alguma coisa contra mim, fale agora e proponha seu desafio.

Visivelmente abalado, o Fianna chegou a dar um passo para trás, numa mescla de arrependimento e ódio. Parecia que até queria se desculpar, mas a fúria corria solta no seu sangue, impossibilitando qualquer saída diplomática. Balbuciou algumas palavras sem sentido, mas, por fim, abaixou a cabeça e pediu desculpas em um tom quase inaudível.

- Eu entendo o que você sente, meu amigo. Mas as leis são claras. Qualquer ajuda que eu envie, qualquer interferência minha ou de qualquer outro caern, pode ser compreendida como um ato de guerra. E eu não posso arriscar uma outra guerra com os Fenrires.

- Mas meu rei...

- Não existe 'mas', Ukrit. Essa é minha decisão final, a seita dos Pilares de Gaia não irá participar, interferir ou ajudar qualquer um dos participantes dessa peleja. Que nossa mãe seja a juíza dessa contenda sem sentido.

O golpe fora bem forte para o guerreiro. Depois de servir ao rei por mais de 10 anos, de lutar ao seu lado em todas as batalhas, de ser seu escudo e lança, com certeza não esperava essa indiferença e recusa completa. O ahroun abaixou mais a cabeça, mordendo os lábios em uma ferida aberta, olhos serrados em uma fúria e desesperos crescentes. Estava à beira de um frenesi.

O momento que Kendra esperava calmamente finalmente chegara.

- Meu rei - disse calmamente, caminhando em direção ao Fianna - entendo que não podemos nos envolver nas batalhas que virão, mas, acredito que tenhamos uma solução para este problema.

Joseph endereçou o olhar impaciente para a Philodox, ainda com certa fúria correndo pelas veias. Parecia querer acabar com aquele assunto de uma vez por todas, e a extensão dele causava muita raiva. Ukrit só conseguia mostrar o cenho em completa descrença.

- Não podemos enviar um garou sob o nome da seita para ajudar, uma vez que as consequências podem ser devastadoras. Mas podemos enviar os Fiannas que fazem parte de nossa seita. Ukrit, junto com o outros, podem ir como parte da tribo e reforçar as defesas do Lamento do Oceano. Nós não poderemos ser responsabilizados pela presença deles lá, e só o fato de Ukrit fazer parte da força de defesa já garante que os Fenrires serão rechaçados. Já vi Ukrit lutando, e tenho certeza que ele conseguirá vencer qualquer Fenrir.

- Agradeço sua sugestão, Kendra, mas eu jamais poderia sair do lado do rei. Jurei pelo Falcão e pelo Cervo, jurei por Gaia e por meus ancestrais que nunca abandonaria Joseph. Sou o guardião deste caern desde que conseguiu a coroa das eras, e não pretendo quebrar meu juramento, mesmo que meu povo precise.

O rei parecia solto em um pensamento longínquo. Voltou a se sentar no trono de madeira, com a cabeça recostada para trás, fitando o infinito céu negro. Ficou naquela posição por alguns minutos, completamente imóvel, apenas com o movimento lento e ritmado da respiração. Após momentos que pareceram uma eternidade, finalmente se sentou normalmente, encarando o Fianna.

- Ukrit Pedra Negra, ahroun dos Fianna, guardião da seita dos Pilares de Gaia e meu amigo, eu lhe liberto de sua promessa e do seu posto nesta seita. Libero também qualquer Fianna que queira lhe acompanhar nessa campanha. Rezo para que o Falcão o leve em suas asas, e o traga de volta segurança.

Foi interessante ver o Fianna se contorcendo de raiva e angustia, sua honra e promessa conflitando com seu amor pela tribo e seus irmãos, num turbilhão de emoções e desespero. Mas não demorou mais que um minuto para decidir os próximos passos.

- Obrigado, meu rei. Partirei na primeira luz do dia.

Levantou-se calmamente, limpou a poeira das vestes e caminhou para longe dali. Os cochichos e burburinhos ecoavam pelas arvores e pela clareira, à medida que todos os garous ali começavam a questionar as consequências daquela ação. A seita estava oficialmente sem um guardião, e pelo menos mais 5 garous iriam acompanhar Ukrit, ou seja, boa parte da capacidade combativa estava de partida. Muitas das vozes questionaram a questão de segurança e proteção do caern, mas nenhuma alta o suficiente para chegar aos ouvidos do rei.

Por outro lado, Kendra estava tendo dificuldades de conter sua alegria. Sempre ouvira que não existia prazer maior do que ver um projeto funcionando, ainda mais um projeto que havia levado tanto tempo e recursos para se concretizar. Finalmente, o cão deixara a casa desprotegida, pronta para as próximas fases.

Se levantou também, pediu licença ao rei, e foi em direção à pequena vila que ficava nos limites do caern. A caminhada sob a luz da lua era refrescante e revigorante, ainda mais sob a forma lupina. A trilha por entre a densa floresta era praticamente invisível para quem não vivia ali, mas para seus olhos treinados e o olfato aguçado, era como caminhar em uma estrada humana. Não levou mais que 30 minutos para chegar até o pequeno amontoado de casas, finamente trabalhadas para fazer parte da floresta, se incorporando na falésia e arvores, amalgamas perfeitas entre o trabalho manual e o trabalho de Gaia.

Ao chegar, se dirigiu diretamente para seus aposentos, um simples quarto reservado na maior casa da vila. Todos os membros do conselho de anciões possuía um aposento ali, mas apenas Kendra o usava com certa frequência, o rei nunca iria dormir em um lugar como aquele, Ukrit preferia dormir ao relento, próximo às bordas do caern, e Ivan passava suas horas livres vagando por entre as camadas umbrais.

Levou um certo tempo para se certificar que todas as portas e janelas estavam devidamente fechadas, além de pedir a benção do espírito do vento para abafar todo e qualquer som que fizesse ali. Quando ficou confortável com o lugar, tirou um pequeno talismã de uma das gavetas e se sentou no chão frio de madeira. Depois de alguns minutos em pleno transe, recitando as palavras que havia aprendido quando era uma criança ainda, sentiu que o ritual se completara com sucesso. À sua frente, um pequeno corvo da tempestade a observava com certa curiosidade e extrema malícia.

- Meu pequenino, quero que leve essas palavras diretamente à Marko. - Perdeu alguns segundos limpando a garganta. - O cão saiu da casa, tudo corre como esperado. O segundo passo começa na próxima lua. Faça sua parte e me informe.

Observou o corvo mais alguns momentos, antes de enviá-lo diretamente à umbra. Levaria algumas horas até que o destinatário recebesse a mensagem, e esperava que ele estivesse a postos para cumprir a parte do acordo, mas não tinha dúvidas que tudo sairia como planejado.

Todas as peças estavam se movendo como esperado.

Continua...


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